Festival Woodstock

Woodstock. Até o século 19 esta palavra significava um romance de Sir Walter "Ivanhoé" Scott e uma cidadezinha perto de Londres. No século seguinte, passou a designar outra pequena cidade, no estado norte-americano de Nova Iorque, e um excelente retiro/esconderijo para artistas - foi justamente por isto que esta cidade entrou para a história do rock, quando Bob Dylan, após sofrer um acidente em 1966, comprou lá uma casa, a famosa "Big Pink", onde chegou a fazer gravações lendárias com a The Band. Outros roqueiros, atraídos pela figura já mítica de Dylan e pela atmosfera tranqüila do local, transformaram-no em parada obrigatória. Mas quem hoje em dia se lembra de tudo isso após o grande evento de agosto de 1969? Hoje, a palavra "Woodstock" é sinônimo de festival de rock, de hippismo e contracultura.

Na verdade, o festival de Woodstock, além de irmão muito maior do igualmente importante Monterey Pop Festival, realizado em 1967, foi um dos maiores momentos de transição para o rock, ao mesmo tempo sua última grande manifestação de inocência e pureza e sua primeira mega-empreitada comercial. Até então, o máximo que acontecia eram discos vendendo um ou dois milhões de cópias e artistas tocando para "apenas" 150 mil pessoas; foi com Woodstock que o rock virou produto em grande escala, inflacionando platéias, vendagens de discos, cachês de artistas.

Planejamento. Os anos 60 foram "a década dos festivais de música" no mundo todo: festivais de jazz (Richmond), folk (Newport), mpb (TV Record), pop em geral (San Remo, os FICs) e, claro, pop rock (Monterey, Atlanta e outros ancestrais de Woodstock). Foi Michael Lang, um hippie com tino empreendedor, quem teve a idéia de fazer "o maior festival de rock do mundo". Unindo-se ao compositor e profissional de gravadoras Artie Kornfeld, ambos convenceram um mecenas, John Roberts, a financiar o evento.

O planejamento do festival de Woodstock levou seis meses e em nada sugeria o caos que a vida real presenciou. Reservou-se um fim de semana em pleno verão no Hemisfério Norte, meados de agosto. As apresentações teriam início às 13h e terminariam à 1h. Lembrou-se de detalhes como sanitários portáteis, água e comida. Todos os shows seriam filmados e gravados para futuras negociações com gravadoras e companhias cinematográficas. E a vila de Woodstock, pequena demais para um grande evento, serviria apenas de chamariz; o festival aconteceria num local próximo, e conseguiram um em White Lake, a 40 km de Woodstock: uma fazenda de 600 acres cujo dono se chamava Max Yasgur. (Curiosidade: o grupo Tommy James & The Shondells, de muito sucesso na época, recusou-se a participar do festival devido a um engano. "Estávamos no Havaí", lembra Tommy James, "e minha secretária ligou e disse 'Êi, tem um fazendeiro no Estado de Nova Iorque que quer que vocês toquem no campo dele'. Foi assim que me apresentaram o evento. Daí que recusamos e só fomos saber o que perdemos alguns dias depois").

Que cultura é essa? Chegou-se a uma lista final dos artistas participantes, uma bela e bem feita combinação de nomes consagrados, astros em ascensão e iniciantes ou obscuros, e eclética o bastante para ninguém reclamar: rock dos anos 50 e 60, folk, country, blues, soul, música hindu e um blues rock pesado que ainda não atendia pelo nome heavy metal. E previu-se um público de no máximo 200 mil pessoas; a venda antecipada de ingressos chegou a 186 mil.

Tudo muito bonito e certinho no papel, mas... Faltava uma semana para o festival começar e já havia gente chegando ao local. Três dias antes, todas as estradas se entupiram de carros e mais carros - a tal ponto que a hoje obscura banda Sweetwater, que iria abrir o Festival, teve seu caminhão simplesmente imobilizado, a 16 km da fazenda, e conseguiu se apresentar no meio do dia. Ah, sim: os shows só foram começar por volta das 15h e terminar lá pelas 10h da manhã seguinte. A platéia acabou sendo de 500 mil pessoas, sem contar o outro meio milhão que nem conseguiu chegar perto da fazenda e deu meia volta. Não demorou para Woodstock ser comentado não como um evento musical (ou uma "feira de música e artes", como o festival se promovia), mas como um grande evento social, uma enorme e estranha mistura de grande festa e calamidade pública. "Que cultura é essa capaz de criar uma confusão tão colossal?", perguntou o New York Times. "Parecia o exército de Napoleão saindo de Moscou", escreveu o jornal Rolling Stone; "tudo era só tendas, fogueiras de acampamentos, carros tombados em valetas, gente andando, deitando, bebendo, comendo, lendo, cantando. Jovens dormiam, faziam amor, tentavam atravessar os pântanos, ordenhar as vacas locais e cozinhar milho". Musicalmente, este jornal disse que ver de uma vez só Joe Cocker, Ten Years After, Johnny Winter, Sha-Na-Na, Crosby e sua turma e tantos outros equivaleu a assistir Deus ás voltas com a Criação. "E o Meu próximo número é..."

___________________________________

O Festival de Música e Artes de Woodstock foi o mais importante festival de rock and roll de sua época. Foi realizado em uma fazenda em Bethel, Nova Iorque, durante os dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969 e, embora tenha sido projetado para 50 000 pessoas, mais de 400 mil compareceram, a maioria das quais não pagaram o ingresso.

Todo o evento provocou uma grande balbúrdia, com rodovias congestionadas e Bethel sendo ocasionalmente considerada "área de calamidade pública". O Festival de Woodstock representou um marco no movimento de contracultura dos anos 60, e foi o auge da era hippie.

Programação Woodstock 1969

Sexta-feira, 15 de agosto

O festival abriu oficialmente às 17 horas com Richie Havens. Este dia apresentou sets mais leves, trazendo a maior parte dos artistas folks que participaram.

* Richie Havens, abrindo com seu violão de doze cordas e tocando "High Flyin' Bird" e "Freedom", a última sendo criada no próprio palco.
* Country Joe and the Fish, set de cinco canções, incluindo "Janis" e "I-Feel-Like-I'm-Fixin'-to-Die Rag"
* John Sebastian, não convidado oficialmente, mas encontrado vagando no meio do público e chamado a participar
* Incredible String Band: "Catty Come", "This Moment Is Different" e "When You Find Out Who You Are"
* Sweetwater, com "Motherless Child", "What's Wrong" e "Why Oh Why"
* Bert Sommer, com "Jennifer", "She's Gone", "Things Are Going My Way" e "Smile"
* Tim Hardin, "If I Were A Carpenter"
* Ravi Shankar, com um set de cinco canções, foi forçado a sair devido à chuva
* Melanie, "Beautiful People" e "Birthday of the Sun"
* Arlo Guthrie, "Coming Into Los Angeles", "Walking Down The Line" e "Amazing Grace"
* Joan Baez, concluindo um set de cinco canções com "We Shall Overcome"

Sábado, 16 de agosto

O dia abriu às 12:15 da tarde, e trouxe os principais artistas psicodélicos e de rock do festival.

* Quill, com uma canção, "Waitin' For You"
* Santana: "Persuasion" e "Soul Sacrifice"
* Canned Heat, com "A Change Is Gonna Come" e "Going Up The Country"
* Mountain, set de uma hora
* Janis Joplin, set de dez canções, incluindo "Piece of My Heart"
* Sly & the Family Stone começou às 1:30 da manhã, com canções como "Everyday People", "Dance To The Music", "Music Lover", e "Higher"
* Grateful Dead: "St Stephen", "Mama Tried", "Dark Star/High Time" e "Turn On Your Lovelight"
* Creedence Clearwater Revival, apresentando "Born On The Bayou", "Bad Moon Rising" e "Suzy Q"
* The Who, começou às 3:00 da manhã de domingo, apresentando um longo set que incluía "Pinball Wizard" e "My Generation"
* Jefferson Airplane começou às 8:00 da manhã, fechando a jornada de sábado com "White Rabbit".

Domingo, 17 de agosto

O dia abriu às 14 horas com Joe Cocker. Os eventos deste dia acabariam atrasando a agenda do festival em nove horas, e no nascer do sol do dia seguinte o concerto ainda continuava, apesar da maioria do público já ter ido embora.

* Joe Cocker começou com "Delta Lady", "With A Little Help From My Friends" e outras canções, levantando a massa com seu desempenho explosivo.
* Depois do set de Joe Cocker um temporal teve ínicio, atrasando o festival
* Country Joe and the Fish terminou seu set aproximadamente às 6:00 da noite
* Ten Years After, apresentando um set de quatro canções, incluindo "I'm Going Home"
* The Band, com um set de dez canções
* Blood, Sweat & Tears entrando na madrugada com cinco canções, incluindo "Spinning Wheel"
* Johnny Winter apresentando "Tobacco Road" e Edgar Winter
* Crosby, Stills, Nash & Young, começando aproximadamente às 3:00 da manhã de segunda-feira, com sets acústicos e elétricos em separado
* Paul Butterfield Blues Band, set de cinco canções, incluindo "Everything's Gonna Be Alright"
* Sha-Na-Na, incluindo "Who Wrote The Book of Love" e "Duke of Earl"
* Jimi Hendrix, que deveria fechar o festival à meia-noite, começou às 9:00 da manhã. Apresentou um set de dezesseis canções, finalizando com "Hey Joe".

Outras edições

Para comemorar os 25 anos do superevento, 250 mil pessoas se reuniram no Woodstock 94, em Saugerties, a 135 km de Nova York. Pagaram 135 dólares para ouvir quarenta grupos de rock. Outra edição ocorreu em 1999, registrando altos índices de violência. O evento mostrou-se economicamente inviável, e foi a última tentativa, fracassada, de reviver o mito de "paz e amor" do Woodstock original.

Imitações brasileiras

O Brasil também tentou emular a aura hippie. Em 1971, na cidade de Guarapari, foi realizado o "Festival de Verão de Guarapari", que, devido à falta de verbas dos organizadores foi um fracasso retumbante.

Já em janeiro de 1975, na Fazenda Santa Virgínia, em Iacanga, interior de São Paulo, aconteceu o primeiro "Festival de Águas Claras", também anunciado como o pretenso "Woodstock brasileiro".

___________________________________

Fontes : Associação Cultural Dynamite; Ayrton Mugnaini Jr. Wikipedia; Registros do Woodstock

João Marcos Prado - Antena 1

1969 Woodstock
Festival & Concert - Clique Aqui

Voltar a página dos anos 60