Fusão Genial de eletro e clássicos do século XX

Musicians and Machines agora pode ser baixado em loja virtual da gravadora.

Há sete anos vivemos no século 21. E agora talvez possamos, graças a esta pequena distância temperada e com uma ótica menos preconceituosa, ter uma idéia mais correta do que foi a música do século 20. É o que faz de modo inteligente o álbum duplo Musicians and Machines – Warp Works & Twentieth Century Masters. Ele registra, em concertos ao vivo entre 2003 e 2004 com a London Sinfonietta, 19 obras assinadas por previsíveis mestres do século 20 – como Stockhausen, John Cage, Gyorgy Ligeti, Edgard Varèse e Steve Reich – e criações de DJs especialistas em música eletrônica com Aphex Twin e Squarepusher. De bônus, um belo arranjo instrumental de uma obra do originalíssimo e pouco conhecido compositor norte-americano Conlon Nancarrow.

London Sinfonietta, 12 March 2004
photo: David Bowen

O álbum foi lançado no fim do ano passado no mercado internacional pelo selo independente inglês Warp Records. A novidade é que agora você pode baixar faixa a faixa na loja virtual da gravadora, www.bleep.com ao preço individual de US$ 1,35. Portanto, o álbum está democraticamente mais acessível a qualquer um, esteja onde estiver no planeta. E o melhor, você não é mais obrigado a levar peso morto – ou seja pagar pelo álbum inteiro para ouvir só o que interessa.

Isso de certo modo, modifica até o modo de se fazer crítica musical. Agora é possível indicar essa ou aquela faixa como as que da fato merecem ser ouvidas (e compradas), e quais as que merecem a lata do lixo. Destrói, de um lado, o conceito de disco, com começo, meio e fim; e inaugura o reino do livre-arbítrio para quem consome. O conceito, o fio condutor, quem constrói agora é o ouvinte. Os dois CDs exploram as relações entre músicos e máquinas, entre música ao vivo e música eletrônica. Mais precisamente: exploram pontos comuns entre os experimentos eletrônicos do selo Warp ( fundado 20 anos atrás e que revelou DJs importantes como Aphex Twin, que foi a maior estrela de um festival internacional de jazz em São Paulo e Rio em 2001, e Squarepusher) e os clássicos eruditos do século 20. As gravações são todas ao vivo.

Dois tipos de público podem se interessar por um álbum assim construído: os vanguardistas fascinam-se por Cage, Varése, Ligeti, Stockausen e Reich; a tribo eletrônica corre atrás de seus ídolos Aphex Twin e Squarepusher. Está aí a grande força de Musicians and Machines. Tem sons para todo mundo. Com a vantagem de levar o pessoal a pular as cercas cretinas que separam um e outro universo.

Vejam só este exemplo. John Cage (1912-1992) e Aphex Twin (1971) praticam a mesma idéia: alterar por meio da introdução de objetos variados a sonoridade do piano convencional (Cage foi pioneiro, no final do anos 40). O primeiro com porcas e parafusos, borrachas, etc.: o segundo apenas com longas correntes abraçando as cordas.


Photo of John Cage

É uma delícia comparar os resultados das peças 1 e 2 de Twin com Clive Williamson, e as sonatas 1, 2, 5 e 6 de Cage com Rolf Hind. Aphex Twin é pseudônimo de Richard David James, irlandês, infernal, especialista em música eletrônica. Inventor do chamado IDM (Intelligent Dance Music), consegue ser mais interessante do que Cage.

Outro par surpreendente, Colon Nancarrow (1912-1997) e Squarepusher (1975) fizeram música impossível de ser tocada por seres humanos, tamanha a complexidade. Nancarrow criou mais de 50 Estudos para o “player piano”, ou seja, o pianoroll dos anos 10 do século passado, que usava rolos de papel perfurado para e reprodução mecânica. Squarepusher, claro, mergulha no computador. No álbum, músicos tocam transcrições instrumentais de suas criações. E aí faço a primeira recomendação obrigatória: é preciso ouvi-los e baixar pela internet. A começar com o incrível arranjo de Yvar Mikhashoff (1945-1992) para o estudo n° 7, um complexo contraponto de Nancarrow que Yvar arranja para piccolo, oboé, clarineta, clarineta-baixo, fagote, sax-alto, trompa, trompete, trombone, 2 violinos, viola, cello, contra-baixo, piano, cravo/celesta e percussão. A mesma formação em ambos os casos regida por Stefan Asbury, interpreta, em arranjo de David Horne, a ótima The Tide, de Squarepusher, pseudônimo de Tom Jenkinson, especialista em “drum´n bass”, música concreta, acid, tudo temperado com influências jazzísticas.


Aphex Twin

Sai Squarepusher, entra triunfalmente Aphex Twin no segundo CD. Ele assina 15 minutos de músicas surpreendentes. São duas criações: AFX237 V7 e Polygon Window (a primeira é interpretada pela formação mais ampla acima descrita da London Sinfonietta); a segunda, que ele também usa com outro pseudônimo, joga no palco dois pianos, violinos e 11 percussionistas. Direto ao ponto: provavelmente um criador genial e cabeça aberta como Duke Ellington escreveria coisas parecidas com isso, se vivesse hoje. Alguém aí pode soprar o nome de Sun Ra – mas seria enganoso. Ra estaria mais próximo, em seu misticismo cosmológico, de Stockhausen. Twin tem o gosto pela música instrumental, pelo timbre e pelo pulso – e isso o aproxima demais de Ellington.

Como este é um álbum que mistura genialmente dois universos, os sentimentos de surpresa deslocam-se a partir do ponto de vista de quem ouve. No meu caso, Aphex Twin, Squarepusher e Nancarrow responsabilizam-se pelas criações/performances obrigatórias.


Conlon Nancarrow, 1990
Photograph ©John Fago

Quanto ao resto...Bem, o restante é também muito bom, mas conhecido há tempos. Se Ionization de Varèse ainda conserva todo o seu poder impactante ainda hoje, quase um século depois de escrita, o mesmo não se pode dizer das peças estritamente minimalistas de Steve Reich. Violin Phase e Six Marimbas soam datadas, não provocam mais do que tédio. Mas Ligeti e Stockhausen honram a vanguarda. O Concerto de Câmara do húngaro morto no ano passado é um excepcional estudo de timbres em quatro densos movimentos; em Spiral, de 1968, Stockhausen tenta fazer de seu intérprete (no caso, o saxofonista Simon Haram) o receptor de mensagens cósmicas via ondas curtas de rádio (com meios eletrônicos manipulados em tempo real no palco). Dois triunfos da música mais radical.

João Marcos Coelho - Especial para o Estado de S.Paulo



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