Quando o Jazz é sagrado

O lendário Yusef Lateef, aos 90 anos, vem pela primeira vez ao Brasil e, em entrevista, diz que música deve buscar significado do presente.

Aos 90 anos, desembarca em São Paulo, no Sesc Pompeia, no próximo dia 12, um gigante do jazz, o sax tenor e flautista Yusef Lateef, nascido William Emanuel Huddleston em 1920 em Chattanooga, Tennessee. Ele integrou os grupos de Dizzy Gillespie, Charles Mingus e o Cannonball Adderley Sextet. É a primeira vez de Lateef no Brasil.

"Gentle Giant" Yusef Lateef, "Knust" Hamburg, Oktober 1971

Clique na imagem para amplia-la

Yusef Lateef - Why Do I Love You

A exemplo de Ornette Coleman (80 anos), Sonny Rollins (80 anos) e Dave Brubeck (90 anos), ele é um dos remanescentes de uma era de ouro do jazz. Poucas coisas são tão referenciais no gênero quanto o estilo macio de Lateef na música Theme from Spartacus. Qualquer coisa que se ouça dele entre 1940 e 1970 é imediatamente reconhecível - é a própria expressão do estilo no jazz. Mas ninguém espere que ele chegue ao Sesc Pompeia tocando Take the "A" Train. "Eu não toco mais standards", disse Lateef.

Yusef Lateef - Take the A train - Part 1

Compositor, escritor, artista visual, filósofo, músico, o Dr. Lateef foi agraciado, no ano passado, com o título de American Jazz Master pelo National Endowment for the Arts, o Fundo Nacional de Cultura dos Estados Unidos. "Yusef Lateef tem sido uma fonte de inspiração para o mundo da música durante muitos anos.

Yusef Lateef - Theme from Spartacus

"Não toco mais standards porque a supremacia dos standards fez com que a evolução ficasse em segundo plano, a música se tornou muito típica", afirmou o artista, que fará seu show em São Paulo com Rob Mazurek (trompete), Jason Adasiewicz (vibrafone), William Parker (baixo), Thomas Rohrer (rabeca) e Maurício Takara (percussão).

Segundo Lateef, o que o mantém em atividade aos 90 anos é a curiosidade existencial. "O que eu procuro é mergulhar dentro daquilo que sou", disse. "O que me mantém ativo é a busca do significado do presente." Ele começou aos 18 anos - ou seja, já está há mais de 70 anos na ativa. "Da minha juventude, eu me lembro do prazer. Tocar com pessoas como Roy Eldridge e Dizzy Gillespie foi puro prazer. Uma sensação maravilhosa."

Muitos críticos dizem que Yusef Lateef foi o inventor da world music, ao lançar, em 1961, o disco Eastern Sounds, em que misturava jazz com sons do Oriente - mas ele dá uma gargalhada quando ouve isso. "A sensação de ir em direção à experimentação revelou-se, no final, muito eficiente", diz apenas.

Não se surpreende com a notícia de que o show de Ornette Coleman no Sesc tenha sido um dos mais bem avaliados de 2010. "Imagino que hoje algumas plateias conseguem apreciar a revolução. E talvez eles não apreciassem antes porque não entendiam. Se você entende a evolução, você passa a aceitá-la."

Lateef não aponta nenhum novo nome do jazz como destaque, em especial. "Bem, eu não desgosto de ninguém. Todos estão tentando produzir algo belo, com significado", diz. O jazzista viveu e lecionou na Nigéria durante quatro anos, como pesquisador sênior, para uma tese sobre a flauta africana. Na banda de Cannonball Adderley, ouviu muito a música brasileira - Adderley era fã.

"Acho que cada país tem algo de único a oferecer em termos de música e arte. Mesmo sem entender bem, eu tentei", conta. Está ansioso para fazer seu primeiro show no Brasil. "Acredito na paz, no amor, no respeito e na humanidade. E no amor de Deus. Tento fazer o bem e acredito no amor do Criador. Quero que as pessoas venham para ouvir, e que possam sentir a emoção da expressão musical."

Yusef Lateef - Semiocto

 

Som vem da sua energia física, mental e espiritual

Ele sempre está no primeiro trem rumo ao desconhecido. Como no incrível CD Towards the Unknown. Você ouve First Train e se surpreende pela voz macia e sopro estridente. Um minuto e meio de um blues primal em que canta: "Jamais sentimos as coisas do mesmo jeito." É, sua música está em permanente e serena revolução.

Yusef Lateef

Clique na imagem para amplia-la

Nem precisa reafirmar. Foi o primeiro a incorporar as escalas e modos das músicas orientais e indianas. Isso fica claro nos dois concertos de Towards the Unknown, gravado por Lateef em setembro de 2009 com o percussionista Adam Rudolph, e lançado no fim de 2010 (Meta Records). É uma troca de presentes de aniversário. Rudolph, seu parceiro há 21 anos, assina Concerto for Brother Yusef; e ele compôs Percussion Concerto (for Adam Rudolph).

Duas obras de fôlego. No concerto de Rudolph, uma seção de cordas acompanha o sax de Lateef distribuindo-se por seis partes curtas, entre 1"30 e 7 minutos cada uma. Nasceu num espetáculo em que Lateef recitou poemas acompanhado por percussão. Southside é um duo espetacular de tenor e percussão. Lateef chama sua música de "autofisiopsíquica": vem de sua "energia física, mental e espiritual". Em Reflections, terça lanças com as cordas; e na conclusiva A Better Day, beira o poema de protesto: "Tem gente que não tem o que comer"...

O concerto de Lateef é ainda melhor. Da gravação participam flauta, oboé, clarineta, fagote, trompa, trombone, piano e um quarteto de cordas. Ele escreve as partes - e joga os improvisos para Adam. São dois movimentos - o primeiro, de 20 minutos; e uma coda, de pouco menos de 6 -, em que o colorido dos timbres surpreende a cada intervenção. Aqui se percebe como Lateef preza a matriz afro-americana de pergunta-resposta, e adora intervalos dissonantes como os de segunda e terça menores e quarta aumentada, herança sadiamente contaminada com os modos orientais.

Yusef Lateef

Clique na imagem para amplia-l

O patamar de invenção dessa música é alto: a exigência criativa de seus improvisos é tão rigorosa quanto a das músicas contemporâneas ditas eruditas. Por isso, um dos grupo que o acompanha é o S.E.M. Ensemble, regido pelo checo Petr Kotik, que desde os anos 70 se dedica "à música nova".

Yusef Lateef - Lover Man

Yusef Lateef @ 90

During one of the impromptu songs that ninety year old Yusef Lateef performed at Grace Cathedral in San Francisco on a Friday night in late October, he began to sing about “Crossing the river and getting to the other side,” and “taking my brothers andd sisters with me.” Harkening back to spirituals in the confinees of one of America’s great churches — this was where Duke Ellington first premiered his Sacred Music concert — lent an air of hopefulness to an already entertaining set. With the aid of percussionist Adam Rudolph, Lateef, who performed mostly on tenor saxophone, musette and flute, used the spaciousness and the famous seven-second delay of the Cathedral to the best advantage I’ve heard at these so-called Sacred Space concerts over the years.

With improvised music totally constructed from horn sounds, beats from conga and djembe, chants and vocals, tones and elongated notes that reverberated off the Cathedral’s vaulted ceilings, this music was perfect for the place and the place ended up being perfect for the music. One reason why this worked so well this time and maybe not so well for others in this place is because both of these musicians know how to play in — and with — space. Listening to Adam Rudolph’s measured hits on gong and his nearly silent patient tones on xylophone reminded me of his contributions to the quiet songs of Mandingo Griot Society, with Hamid Drake and Foday Musa Susso back in the ’80s.

Lateef was one of the first, if not the first, jazz musician to use Eastern instruments in his music. So to hear this concert was to return to the mode of tunes like “Three Faces of Bilal” from his 1961 Prestige release Eastern Sounds, or “Chandra” from The Diverse Yusef Lateef; quiet, contemplative, nearly meditative music meant to soothe and heal. Lateef and Rudolph used the space in between sounds to aid the composition, timing, and to let the reverberation fill in where they felt it would work best. And then Yusef sang, his voice surprisingly resilient for his age. Still wearing a kufi and traditional African garb, Lateef is still, to this day, true to his life’s intentions and not just artistic intentions. Then again, to the true artist, those intentions are one and the same.

Rahsaan Clark Morris 10/22/10

 

Fontes: Jotabê Medeiros; João Marcos Coelho - O Estado de S.Paulo; http://www.openskyjazz.com/2010/11/yusef-lateef-90/

Home
Links


Matérias: Matérias Antigas | Quando o Jazz é sagrado | Strokes lança primeira música em seis anos | Videos Criativos 2011 | BMW Jazz Festival | Fitas cassete resistem | Lotus - Santana | Virada Cultural 2011 | Gismontipascoal | Tom na Visão de Nelson | Nas Paredes da Pedra Encantada | A Trilogia Sagrada | Reinauguração do Teatro Municipal de São Paulo | Pitchfork Music Festival 2011 | O Adeus à Diva | Philip Glass: uma assinatura própria | Rock in Rio 2011 | SWU | Lista Eldorado 2011 | Kisses on The Bottom | Oscar 2012 | Festival da Cores | Novo Documentário dos Stones | The | The Band: O Ùltimo Concerto de Rock | The Singer - Liza Minnelli | Psicodalia por ordem cronológica

Destaques: A volta do Queen | Babyshambles | Cantoras Brasileiras | Cena Eletronica | Clocks | Corinne Bailey | Dig Out Your Soul | Escola do Pop Rock | Horace Silver | Im Takt der Zeit | Keane | Jamie Cullum | John Legend | Julliete & The Licks | Kantata Takwa | Led Zeppelin | Madeleine Peyroux | Michael Jackson - Thriller 25 | Little Boots | Miriam Makeba | Mostra de Arte / Casais | Musicians and Machines | Nara e Fernanda | Nonsense | Oscar Peterson | Paul McCartney | Piaf - Um hino ao amor | Prokofiev | Regentes | Rotciv | Stay | Studio 54 | Yo-Yo Ma | The Heist Series | The Verve - Forth | Vanessa da Mata | Demis Roussos & Aphrodite's Child | Tommy avec The Who | Villa Lobos, Brisa Vesperal