Grandes Albuns Clássicos do Jazz

 

Ella Fitzgerald - Sings The Gershwin Song Book (1959)

Em 1946, Norman Granz colocou Ella Fitzgerald, então com 28
anos, sob sua proteção, escalando a cantora para participar de
uma série de shows organizada por ele só com estrelas do jazz,
conhecida como Jazz At The Philharmonic. No entanto, a fama de Ella só se tornou incontestável quando Granz a contratou, pelo seu selo Verve, para fazer uma coleção de álbuns com a obra dos melhores compositores americanos – entre eles Richard Rodgers e Duke Ellington.

Se um pouco da malícia de Cole Porter se perdeu na
interpretação de Ella Fitzgerald, e nem todas as músicas de
Rodgers e Hart mereceram sua atenção, as melodias incompará- veis de Gershwin e o jeito à vontade de cantar da diva foram feitos um para o outro. A terna “Oh, Lady, Be Good!” é uma revelação, uma interpretação próxima às aulas de scat que Ella daria em seus shows durante anos; a lenta “Embraceable You” é, da mesma forma, envolvente. Mas é nas músicas rápidas que ela brilha.

O swing que Ella emprestava, sem esforço, a tudo o que cantava encontra o seu melhor em “Clap Yo’ Hands”, “Bidin’ My Time” e na deliciosa “‘S Wonderful”; vale ouro o tempero que ela acrescenta à contraposição boba de salsaparilla/sasparella dos versos de Ira Gershwin em “Let’s Call The Whole Thing Off”. Riddle, no auge de sua criatividade depois de vários discos com Frank Sinatra, mostra-se inspirado.

Este álbum é o melhor da coleção Song Book e apresenta a seleção definitiva da obra daquele que é, talvez, o compositor americano definitivo. WF-J

Well here you have it – an album so long, and so self-indulgent, that it almost derailed the whole project only a month in. Which isn’t really fair to Ella Fitzgerald, I suppose; her album is a chore to listen to from end to end, but then this isn’t the sort of album you should listen to from end to end. It’s a catalogue of the music of the Gershwins! You pop it on if you want to hear “I Got Rhythm”, or leave it playing around the house. It conveniently collects the majority of their tunes into one handy package – if you consider what must have been something like a 5 x LP box set convenient.

And, amazingly enough, this all holds up pretty well. Going into detail on the individual songs would be a maddening and time-consuming task, but thankfully this set lends itself to being discussed in broad terms. And, in short, it’s generally pretty good, but not great. Well, a couple of the songs are sort of great – the explosive instrumental section of “Just Another Rhumba”, for example, and “’S Wonderful”, which is just such a happy and charming little tune. Actually, most of disc 1 is pretty good. And, you know, Ella is pretty good. Not great, but good. Maybe a little flat?

This is the George & Ira Gershwin songbook, and so the focus shouldn’t be entirely on Ella Fitzgerald. Nelson Riddle did the arrangements on this album, working with Ella for the first time, and a lot of the time the instrumentation is more compelling than the vocals. That may sound harsh, but consider this – firstly, Ira Gershwin wasn’t that great a lyricist. In fact, most of his songs could be best described as “inane”. His strength lies in very simple, emotional pleas for companionship and in jokey novelty tunes, and when he plays to that strength you get some great stuff. But then, sometimes you don’t. Although, having looked on the internet, some of these songs seem to feature alternate lyrics, which means I may not have all the evidence at hand to give him a fair trial. In any event, the songs succeed more on emotional and melodic levels than lyrically. Is anyone going to defend “Stiff Upper Lip” as anything other than an awful bit of stereotyping performed badly?

Secondly, Ella sings almost everything in a very measured and deliberate manner. This is Gershwin! It should swing more. Take “Boy Wanted”, which could have gone-off like a rocket, but which instead plods along very pretty but ultimately less than dazzling. And then, Ella’s voice isn’t placed anywhere near far enough forward in the mix, thus making it seem rather small and thin and “away in the distance”, which is a pity. But then you have the wonderful vocal glissando that opens “Soon”, or the low vocal on the pretty “Somebody from Somwhere”, which comes complete with swirling harps and begs to be performed by Judy Garland, or “A Foggy Day”, which also has a lovely little brassy bridge.

In the end, this whole album is a mixed bag. You have some good songs performed badly (“Let’s Call the Whole Thing Off”, or “The Man I Love”), some bad songs performed well (“Somebody from Somewhere”), and most of the songs are neither particularly good nor particularly bad. They are just, well, alright. The insistence of Riddle and Fitzgerald on performing every singly song in an “pop” style, adapting the material to themselves rather than themselves to the material, is a bit annoying. These are show tunes, damn it! They deserve to be swinging, trashy and rough. When Ella complained in one song that Gershwin “won’t stop pounding tin” I had absolutely no idea what they were on about. As a document of Gershwin’s music it might be argued that this fails because, ultimately, it’s far too reverential, prettying-up the tunes of a duo who’d already been canonised. Most of these songs are nothing but barely-dressed lust, and where is the sense of that? Ella does the pretty, reflective tunes well, but I just don’t know... Is it wrong to simply not like Ella Fitzgerald much? I feel guilty about it, but fuck it! This is my blog! I don’t like Ella Fitzgerald much! I think she has a fine voice but she’s a mediocre interpreter of songs.

I guess if I had to sum up, this is an album of exceptional instances and general consistency, rather than a full-on wower, but then, you can’t really expect much else can you? It’d be preposterous to assume that George and Ira Gershwin wrote only great songs, and it’d be equally idiotic to suggest that every single song that Ella Fitzgerald recorded was going to turn-out spectacular. This is an important album, because it provides a glimpse into all the strengths and weaknesses of both the Gershwin brothers and Ella Fitzgerald, and as a consequence you get a fascinating document of three of the most important figures in modern music.

 

 

Sarah Vaughan - At Mister Kelly’s (1958)

Sarah Vaughan já era uma das mais adoradas divas do jazz
quando fez uma temporada de uma semana no Mister Kelly’s,
uma badalada casa noturna de Chicago, no verão de 1957. Ella
Fitzgerald se embrenhava cada vez mais no swing e Billie Holiday mergulhava no lirismo, e nenhuma cantora de jazz se comparava a Vaughan em sua voz impecável e suntuosa sonoridade.

Uma virtuose com total controle de diapasão, timbre e dinâmica, ela usava sua rica voz de contralto como uma trompa, embelezando as melodias com uma imaginativa estrutura de composição, ípica dos melhores improvisadores instrumentais do jazz.

Conhecida como “Sassy” por sua irreverência, Vaughan foi
uma peça-chave na criação do bebop, embora nem sempre
receba esse crédito. Ela funcionava melhor quando acompa-
nhada por poucos músicos e nunca cantou com um trio tão bom
quanto o que levou para o Mister Kelly’s, composto pelo subesti-
mado pianista Jimmy Jones, o monstro do baixo Richard Davis e
o moderno baterista de jazz Roy Haynes, que fazia um contra-
ponto perfeito para Vaughan com suas entradas peculiares e
luminosas.

O CD Sarah Vaughan At Mister Kelly’s, lançado em 1991 pela
EmArcy, justifica plenamente as reedições. Contém o dobro de
músicas do original. Vaughan está inefável em “September In
The Rain” e sensual em “Honeysuckle Rose”. Quando esquece a
letra em “How High The Moon”, tem presença de espírito e ofe-
rece alguns improvisos em homenagem a Ella Fitzgerald. AG

 

 

Stan Getz & Charlie Byrd - Jazz Samba (1963)

Embora sempre receba o crédito por ter despertado a onda da bossa nova, não foi o Jazz Samba que apresentou o novo ritmo brasileiro ao resto do mundo. O filme Orfeu Negro, um sucesso de 1959 dirigido por Marcel Camus, já havia intrigado platéias internacionais com sua impressionante trilha sonora, de Luiz Bonfá e Tom Jobim. Mas quando o guitarrista Charlie Byrd voltou de uma viagem à América do Sul com fitas de músicas brasileiras e começou distribuí-las entre os amigos, ele acendeu um pavio que explodiu suavemente com sua colaboração. O macio e luminoso sax tenor de Stan Getz mostrou fazer um par perfeito com as melodias graciosas e inefáveis da bossa nova e seu ritmo oscilante.

Gravado num única sessão em uma igreja em Washington, DC, o álbum é uma maravilhosa mistura de swing e samba, com o sax de Getz emendando uma faixa na outra. Uma estrela do jazz do final dos anos 40, o saxofonista teve problemas com drogas e havia acabado de voltar para os Estados Unidos, depois de muitos anos na Europa, quando "Desafinado" virou um hit galopante. O sucesso do disco e as cada vez mais populares gravações de bossa nova de Getz com João e Astrud Gilberto transformaram o gênero brasileiro numa força comercial, numa época em que a energia inicial do rock´n´roll havia se dissipado em um pop descartável, e os Beatles ainda estavam plantando as sementes de sua música em Hamburgo.

A parceria entre Byrd e Getz terminou em maus tempos logo depois, mas a música que produziram permanece como uma ilha de calma e beleza transcendental num universo pop que, muitas vezes, é regido pelo brilho do flash e pelas aparências. AG

 

 

Thelonious Monk | Brilliant Corners (1957)

Um dos mais reverenciados compositores do século 20, sem
falar em sua influência universal como pianista, Thelonious
Sphere Monk ocupava, porém, uma inexplicável posição margi-
nal em 1957.
Depois de ter exercido um papel fundamental na criação do bebop no clube Minton, no Harlem, em meados da década de 40, e de ter contribuído com vários clássicos para o cânone do jazz, ele acabou afastado dos jazz clubs de Manhattan por conta de uma falsa condenação por porte de drogas, e sua gravadora perdeu o interesse em seu trabalho. Monk ficou, então, fora de cena durante os anos 50.

Foi só quando Orrin Keepnews – a alma por trás do selo de indie jazz Riverside – o contratou que ele começou a ter o devido reconhecimento. Keepnews reapresentou Monk ao público do jazz com duas sessões de trio, a primeira em cima da obra de Ellington e a segunda, de standards do pop. Brilliant Corners marcou seu retorno como um compositor de primeira ordem, acompanhado do quinteto formado pelo sax tenor de Sonny Rollins, o sax alto de Ernie Henry (que morreu cedo e tragicamente), o baixo de Oscar Pettiford e a bateria de Max Roach (o trompetista Clark Terry e o baixista Paul Chambres substituem Henry e Pettiford em “Bemsha”). A faixa-título, de cair o queixo, foi a responsável pela necessidade de troca de músicos – era tão difícil que, depois de 25 tentativas, não havia um único take completo.

A tensão é palpável na gravação, mesmo depois da edição
feita por Keepnews, mas o resultado foi a primeira obra-prima
dessa fase da carreira de Monk. Outros destaques são a suave
melodia de “Pannonica”, escrita para a amiga e patronesse de
Monk, a baronesa “Nica” Koenigswarter, e sua versão solo de
“I Surrender Dear”. AG

 

 

The Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959)

A última coisa que Dave Brubeck esperava quando entrou no
estúdio, em 1959, com uma pilha de músicas mal-ajambradas
era fazer sucesso. O pianista de óculos já tinha construído um
invejável império de fãs com seus concertos pioneiros em
universidades. Um experimentador cheio de vida, que nunca
deixou a popularidade interferir em sua inspiração, Brubeck
gravou um dos mais populares discos de jazz de todos os
tempos com um material que não valia muito, para dizer o
mínimo.

Na faixa “Take Five”, concebida previamente no compasso
5/4, pouco apropriado ao swing, o pianista se mantém num
improviso percussivo permanente, enquanto o sax alto de Paul
Desmond navega em uma linha sinuosa. Muitas vezes, Brubeck
não é a estrela do trabalho. Poucos se lembram que Desmond –
que, com seu estilo seco, teve um papel importante no sucesso
do quarteto – é o autor desse inesquecível hit. Da mesma forma,
é fundamental a bateria segura de Joe Morello e a solidez do
baixo de Eugene Wright, que transformaram um material difícil
como “Blue Rondo À La Turk”, no compasso 9/8, e “Three To Get
Ready”, que oscila entre 3/4 e 4/4, em uma matéria-prima funda-
mental do jazz. É bom lembrar que, nessa época, John Coltrane,
Cecil Taylor e Ornette Coleman estavam abrindo os caminhos do
free jazz.

Na lógica defensiva dos críticos de jazz, Brubeck muitas vezes
foi considerado maldito, e perdeu ainda mais valor com o
sucesso que Time Out fez entre o público em geral. Mas o álbum
continua vendendo bem até hoje e, apesar de seu uso excessivo
em anúncios, representa um feito fascinante. AG

 

 

Duke Ellington - At Newport 1956 [Remastered 1999]

Depois de um período de estagnação, quando as bandas de swing saíram de moda, a popularidade de Duke Ellington recrudesceu com sua apresentação no Festival de Jazz de Newport, em julho de 1956. É irônico que o disco lançado apressadamente pela Columbia para capitalizar o sucesso do show não tenha sido gravado realmente em Newport.

Quando souberam que a gravação no festival não havia
ficado boa, os executivos da Columbia enviaram Ellington a um
estúdio em Nova York para refazer a apresentação, na segunda-
feira após o show. O álbum é, portanto, uma colcha de retalhos
dos registros ao vivo e em estúdio, e de aplausos gravados. E se
tornou o maior sucesso de vendas da carreira de Duke.

Um relançamento brilhante, em 1999, finalmente consertou
as coisas. O disco original foi mantido, mas, graças a um
complicado trabalho de pós-produção, utilizando os masters do
álbum de 1956 e uma gravação de rádio há anos considerada
perdida, o show completo foi recuperado e, por fim, é possível
entender por que causou tanto impacto. As três partes da suíte
do Festival de Jazz de Newport – algo tão novo que, segundo
Ellington, “nem tivemos tempo de dar um nome à música” –
apresentam os sons agudos típicos do trompete de Cat Ander-
son. Mas a fama do show e do álbum se deve ao blues eferves-
cente de “Diminuendo And Crescendo In Blues” e, mais
especificamente, aos inacreditáveis 27 refrões que o saxofonista
Paul Gonsalves transformou em um dos solos mais celebrados
da história do jazz. WF-J

 

 

Frank Sinatra - Songs For Swingin´ Lovers! (1956)

Em meados dos anos 50, Frank Sinatra estava de volta ao auge
não apenas de seu talento, mas das paradas, desmentindo a
máxima de F. Scott Fitzgerald: “Não existe uma segunda chance
para os americanos.” No final de 1955, novamente com Nelson
Riddle, Sinatra planejou um disco com um sabor diferente.

O que surgiu dessas sessões, realizadas um mês depois de o
cantor completar 40 anos, foi o oposto do trabalho anterior.
Comparado com The Wee Small Hours e seu clima de bêbado-
num-bar-às-duas-da-manhã, o eufórico Songs For Swingin’ Lo-
vers! parece um passeio numa tarde ensolarada de domingo,
literalmente transbordando de joie de vivre. Sinatra está à vonta-
de como nunca, ágil em “You Make Me Feel So Young”, cantando
“How About You?” como se estivesse pedindo alguém em
casamento ou piscando o olho, daquele seu jeito, em “Makin’
Whoopee”. Mas nada disso teria valor sem a gloriosa orquestra-
ção de Riddle. Reza a lenda que seu insuperável arranjo para “I’ve
Got You Under My Skin”, terminado às pressas na noite anterior à
gravação, foi espontaneamente aplaudido pelos músicos duran-
te a sessão, em 12 de janeiro de 1956.

Este álbum talvez chegue perto de ser o grande songbook
americano. No entanto, os estudiosos mais atentos da música
pop podem reparar que há uma simetria nas 15 faixas que
cravam os 45 minutos do disco. A arte de fazer canções de três
minutos começa e termina ali. WF-J

Fontes: 1001 discos para ouvir antes de morrer; Whiplash, E-Jazz, Loja de Esquina, Omelete