Pinturas de Estrada

A pintura recente de Rodrigo Andrade é marcada pela tensão entre uma reprodução detalhista, quase fotográfica, de um espaço (geralmente uma paisagem) e os blocos espessos de tinta, que denunciam a materialidade do suporte.

O quadro e o espaço que nele aparece são reais, mas as duas realidades não coincidem. Defasagens entre ilusionismo e materialidade não são raras na pintura moderna. Em geral, se dão como alternativa: afastamo-nos para que as pinceladas se fundam na imagem, aproximamo-nos para que a imagem se desfaça nas pinceladas. Isso não acontece aqui. Quanto mais nos aproximamos, mais os detalhes se tornam nítidos; ao mesmo tempo, a matéria se torna mais gorda, quase afundamos nela. A um palmo da superfície, a paisagem ainda está lá, mas não a ilusão de vazio: apenas uma substância densa. O espaço não é apenas representado pela tinta, ele é a tinta.



Estrada com Morro ao Fundo
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Os trabalhos de uma fase pouco anterior eram noturnos, e a tensão entre figuração e matéria nascia do contraste entre escuridão profunda, representada por blocos homogêneos de tinta preta, e áreas iluminadas, em pintura matizada e rasa. Entre as duas situações havia um salto, marcado pela distância entre a superfície da tela e, dois ou três centímetros à frente, a dos blocos de tinta.

As novas obras são todas paisagens diurnas. A transição entre ralo e denso é mediada por um degradé em que mudanças progressivas e muito leves na cor acompanham a mudança gradual da espessura. Já não há salto, mas oscilação. A escuridão é espessa por definição, a luz deveria ser impalpável. Aqui, ela é ao mesmo tempo espessa e diáfana, branco caiado e claridade difusa.



Estrada de Terra na Contra-luz
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De resto, é luz de pintura: os trabalhos noturnos remetiam à fotografia; essencialmente frontais, sugeriam uma iluminação artificial. Os diurnos valorizam a luz natural e retomam a composição clássica da pintura de paisagens, uma estrada em diagonal ligando diferentes planos. Hoje, pintores que lidam com a representação preferem composições frouxas, ou derivadas do enquadre fotográfico. Rodrigo, ao contrário, encara um esquema compositivo dos mais tradicionais e equilibrados. Só pode ter êxito porque a questão já não é a relação entre natureza e representação, mas entre imagem e matéria. O que vemos são formas de imagem, imergidas na pasta da tinta.

Um dos quadros marca a situação limite. Exibe apenas uma faixa de praia e um mar calmo, que no horizonte se confunde com o céu. Não haveria figuração, não fosse por traços de espuma. Não há profundidade porque não há fundo: o foco é infinito; o espaço, ilimitado; tudo é plano. A tinta se confunde com o espaço, como se confundem mar e céu. Não há distinção nítida entre realidade e representação, mas há polarização. O mundo é um degradé.

Lorenzo Mammì



Estrada de Terra com Sol a Pino
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Road Paintings

Rodrigo Andrade’s recent painting is marked by a tension between a detailed, almost photographic, reproduction of a space (usually a landscape) and thick paint blocks, revealing the support’s materiality. The canvas and the space it shows are real, but the two realities do not match. Gaps between illusionism and materiality are not rare in modern painting.

They are often a choice: when we stand back, the strokes are incorporated into the image, and when we get close, the image is dissolved into strokes. This does not happen here. The closer we get, the more the details become clear; at the same time, the matter becomes more full-bodied, we almost sink into it. A feet from the surface, the landscape is there, but not the illusion of emptiness: just a dense substance. The space is not represented by the paint — it is the paint.



Estrada de terra com baobás no fim da tarde, 2013
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The works from a slightly previous phase were nocturnal, and the tension between figuration and matter was born from the contrast between deep darkness, represented by homogeneous black paint blocks, and illuminated areas, both in shaded and plain painting. Between the two situations, there was a leap marked by the distance between the canvas’ surface and, approximately one inch in front, the paint blocks.

The new works are all diurnal. The transition between thin and dense is mediated by a degradé where progressive and very light changes in color accompany the gradual change in thickness. There is no leap, but oscillation. The darkness is thick by definition, the light should be impalpable. Here, it is both thick and diaphanic, whitewashed and diffuse clarity.

Besides, it is a painting light: the nocturnal works referred to photography; basically frontal, they suggested an artificial lightning. The diurnal ones value the natural light and recapture the classic composition of painting landscapes, a diagonal road connecting different planes. Nowadays, painters working with representation prefer loose compositions or the ones based on the photographic framing.



Paisagem de inverno com estradinha 2, 2013
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Unlike them, Andrade faces a more traditional and balanced scheme for composing. He can only be successful because the issue is not anymore the relation between nature and representation, but between image and matter. What we see are forms of image immersed into paint past.

One of the paintings marks the threshold situation. It shows only a beach strip and a quite sea, which merges into the sky at the horizon. There would be no figuration, had it not been by lines of scum. There is no depth because there is no bottom: the focus is infinite; the space is limitless; everything is plain. The ink merges with the space as sea and sky merge with each other. There is no clear distinction between reality and representation, but there is a polarization. The world is degradé.

Escrito e traduzido por Lorenzo Mammì

 

Trilha: John Zorn - Album Nosferatu

Fontes: http://mariantonia.prceu.usp.br/?q=exposicao/rodrigo-andrade; http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/08/1327240-a-clareza-de-norberto-bobbio-e-outras-7-indicacoes-culturais.shtml

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