Don Giovanni

Na segunda metade do século XVIII, o Império Austro-Húngaro passava por sua fase de apogeu e a cidade de Praga concorria com Viena para ser a capital musical da Europa. Devido ao imenso sucesso provocado pela ópera "As Bodas de Fígaro", o empresário Bondini encomendou a Mozart, um novo trabalho para ser estreado na Ópera de Praga.

Wolfang Amadeus Mozart

O compositor e o libretista Lorenzo da Ponte começaram a trabalhar na criação de Don Giovanni (K. 527; título completo em italiano: Il dissoluto punito, ossia il Don Giovanni, lit. O Libertino Punido, ou Don Giovanni) baseado no personagem Don Juan Tenório.

Os personagens vagam num mundo afogado em emoções e desejos violentos, tendo como tema central o “don juanismo” clássico na psicologia moral como símbolo do enlouquecimento do desejo.

Este arquétipo do libertino devasso e amoral, foi retratado em 1630 por Tirso de Molina (1548-1648), na obra El burlador de Sevilla. O francês Jean Baptiste Poquelin (1622-1673), mais conhecido como Molière também se baseou no lendário D. Juan para escrever a peça Don Juan ou le festin de Pierre, cuja estréia ocorreu em 15 de fevereiro de 1665 no hall do Palais Royal.

A figura do execrável conquistador também foi utilizada por Lord Byron e Bernard Shaw, em suas obras, e serviu de tema para o poema sinfônico Don Juan, de Richard Strauss.

Don Giovanni(Mozart) at the Rheinsberg Castle, Berlin

Lorenzo da Ponte baseou-se na personalidade de seu amigo Giacomo Casanova, um dos maiores sedutores da história, para descrever o personagem título de seu libreto.

O sucesso da estréia de Don Giovanni, no dia 29 de outubro de 1787 foi motivo de comentário nas páginas do principal jornal da cidade:

"A ópera que foi dirigida pelo Sr. Mozart é extraordinária e a platéia ficou impressionada com a excelente interpretação. O número elevado de expectadores assegurou a aclamação de Don Giovanni fazendo que esta ópera possa ser considerada uma das maiores composições líricas já escritas."

Prager Oberpostamtszeitung, 3/11/1787.

 

A abertura de Don Giovanni

Ela foi criada horas antes de sua estréia, comprovando mais uma vez a miraculosa capacidade criativa de Mozart.

Don Giovanni at the Montpellier Opera, France, 2007

Ao encerrar o último ensaio geral, na véspera da première, o autor se deu conta que a peça de abertura ainda estava para ser escrita. Ele resolveu trabalhar na partitura durante a noite e, para manter-se desperto, solicitou à sua esposa que permanecesse ao seu lado, servindo-lhe ponche e conversando. Enquanto Mozart criava a abertura, Constanze lia para ele as histórias de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa e outros contos de fadas.

No início da madrugada, os efeitos da bebida se fizeram sentir e Mozart adormeceu. Ao ser despertado às cinco horas da manhã, o trabalho estava pela metade. Em duas horas ele completou a abertura, totalmente orquestrada.

Os originais foram entregues para os copistas que a transcreveram para os membros da orquestra. Segundo o livro de memórias de Wenzel Swoboda, tocador de contrabaixo da Orquestra da Ópera de Praga, os músicos receberam suas cópias alguns minutos antes do início da apresentação, o que impossibilitou qualquer tipo de ensaio. Mesmo assim, o desempenho da orquestra foi admirável, entusiasmando Mozart e a platéia.

The Met: Live in HD Presents Mozart's Beloved Opera 'Don Giovanni' on Oct. 29

A ópera Don Giovanni foi classificada como dramma giocoso e muitas de suas passagens são características da ópera buffa. O criado de Don Giovanni, Leporello, atravessa o espetáculo contornando situações de crise. Na famosa ária, "Madamina, il catalogo è questo", ele tenta aplacar a ira de Donna Elvira, uma das tantas mulheres ultrajadas e abandonadas pelo patrão.

No final do século 18, a Revolução Francesa está às portas da Europa. A peça foi muitas vezes apontada como sendo “pró-revolução”, a favor do novo espírito da época, de questionamento da ordem aristocrática, principalmente por meio da figura do criado Leporello, um homem ressentido e revoltado com seu mestre, que reclama todo o tempo de sua “vida de escravo”.

Durante a ação, o aristocrata comete duas tentativas de estupro, um assassinato e provoca graves ferimentos em um de seus rivais. A licenciosidade, a violência e a crueldade demonstradas pelo Don indicam o prenúncio de um final trágico.

A abertura, já traduz em seus compassos o tema do dramático duelo final travado entre a estátua do Comendador e Don Giovanni. Este é um dos momentos culminantes da ópera, aonde o clima de vingança e punição interrompe o estilo giocoso do libreto.

Don Giovanni à l'Opéra Royal du Château de Versailles

Neste campo dos humores da alma, seus afetos, desejos e vontades, Don Giovanni se insere numa longa reflexão acerca da psicologia moral. Ele é um homem dominado pelo desejo e incapaz de pôr limites racionais à sua compulsão de possuir uma mulher após a outra. Esta compulsão de um desejo que se repete infinitamente, o leva à destruição, assim como a uma quase destruição das mulheres sobre quem ele exerce seu domínio sedutor.

Embora por vezes seja ainda hoje em dia classificada como cômica, ela apresenta características de comédia, melodrama e até mesmo elementos sobrenaturais.

A obra, que tem um tempo de duração de aproximadamente duas horas e 45 minutos, é considerada uma das obras-primas da história das óperas.

Don Giovanni (Mozart)

Gravações

Gravações recomendadas: existem mais de trinta gravações de Don Giovanni, sendo algumas fascinantemente interpretadas por Fricsay, Klemperer, Böhm, Davis, Karajan e Solti. Um dos registros mais importantes é o de Josef Krips conduzindo a Filarmônica de Viena e os solistas Cesare Siepi, Anton Dermota, Lisa Della Casa, Suzanne Danco e Fernando Corena. (Decca 466 389-2).

Para os aficionados por raridades fonográficas, recomendamos o Don Giovanni gravado por Bruno Walter e a orquestra da Opera do Metropolitan de Nova Iorque, com a brasileira Bidu Sayão interpretando Zerlina, ao lado de Ezio Pinza e Alexander Kipnis. (Naxos 8 110013/4).

A Deutsche Grammophon nos traz uma gravação mais moderna e de alto padrão. Trata-se de uma montagem realizada no Festival de Salzburg com Herbert von Karajan à frente da Filarmônica de Berlim e os solistas Samuel Ramey, Anna Tomowa-Sintow, Agnes Baltsa, Kathleen Battle e Paata Burchuladze.

O cineasta Joseph Losey levou a ópera Don Giovanni para a tela, numa rica produção com locações em Vicenza e Veneza. O filme já está disponível em DVD e conta com a brilhante interpretação de solistas famosos, como Ruggero Raimondi, John Macurdy, Kiri Te Kanawa, Tereza Berganza e José van Dam. A música fica por conta da Orquestra da Ópera de Paris, sob a condução de Lorin Maazel.

 

Don Giovanni - La Scala,( Milano 2011)

 

Fontes: http://www.revistadigital.com.br/2014/02/don-giovanni/; http://www.50anos.unicamp.br/blog/artigo/9/opera-don-giovanni; https://pt.wikipedia.org/wiki/Don_Giovanni

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