Conversas com Scorsese

A asma aumentava sua insegurança, tornando-o um garoto desprotegido. Dentro de casa, reinava a ansiedade, graças a uma família, apesar de amorosa, afeita a discussões. E a região onde morava em Nova York agravava a situação: conhecida como Little Italy, a área era ocupada, naquele início dos anos 1940, por uma classe trabalhadora, mas também criminosa, pois a Máfia expandia seu comando semioculto pelo bairro.


New York Night, 1946

"Quando ia ao cinema, ele estava escapando para um tipo de realidade bem diferente - melodrama e fantasia, com certeza, mas de um tipo, na verdade, menos ameaçador que as duras realidades que esse pequeno menino encontrava na vida diária", argumenta Richard Schickel na abertura do seu livro Conversas com Scorsese, que vai ser lançado no dia 20, pela Cosac Naify.

Trata-se de um longo e esclarecedor diálogo travado com Martin Scorsese, um dos maiores e mais profícuos cineastas da atualidade, autor de obras como Taxi Driver, Touro Indomável e A Última Tentação de Cristo.

Taxi Driver

 

 

Raging Bull Trailer

 

 

The Last Temptation of Christ

 

Também americano e diretor, especializado em documentários, Schickel aproveitou-se de uma amizade iniciada em 1973 para gravar uma série de encontros em que Scorsese detalhou sua vida e carreira, seguindo uma ordem cronológica. O resultado, semelhante ao já clássico Hitchcock/Truffaut - Entrevistas (Companhia das Letras), busca mostrar como anseios e sentimentos interferiram diretamente na criação de seus filmes. Mais: como o cinema se tornou não apenas o campo para exercício de seu talento mas também o caminho para a salvação espiritual.


Richard Schickel

"Marty sabe que talvez sua paixão pelo cinema seja exagerada e sua dedicação durante as filmagens às vezes beira o absurdo, mas uma coisa é certa: ele não faz filmes por acaso", disse Schickel em entrevista realizada por telefone, de Los Angeles. Ele, que virá a São Paulo para lançar o livro na Mostra Internacional de Cinema - cuja abertura ocorre no dia 21 -, acredita que tal paixão também representa sua salvação. "Ao longo de sua carreira, Marty oferece uma consciente observação sobre a violência da sociedade contemporânea, ou seja, quase sempre retorna à sua infância onde vivia em uma região marcada pela brutalidade."


Children Playing at Wading Pool, J. Murray Playgound, Queens, 1942, N.York City Park
Clique na imagem para amplia-la

Nascido em 1942, no bairro do Queens, em Nova York, Scorsese descobriu, ainda pequeno, que teria dificuldade de adaptação em uma região onde seu pai era obrigado a se alinhar com uma família do crime para garantir a manutenção da tranquilidade. "Lá, havia uma porção de gente vivendo amontoada. E muita tensão", relembra o cineasta. "Era em uma catedral católica onde eu encontrava certa paz e um pouco de proteção."


Saint Patrick's Cathedral. Photography by Joao Lucas Ferreira
Clique na imagem para amplia-la

E também nas salas de cinema. Doente, Scorsese vivia isolado, desobrigado de realizar qualquer tarefa física. Assim, o ritual de assistir a filmes ao lado do pai Charles tornou-se vital. "Aquilo que Marty observou e aprendeu em seus anos de formação foi a melhor preparação possível para a carreira que ele assumiu depois", escreve Schickel, no livro. "O que é, por sua vez, um jeito de dizer que, num sentido bastante profundo, ele é autobiográfico - não tanto do ponto de vista episódico, mas de vida anterior, de temores nos anos formativos."

The Bad and the Beautiful ( Assim Estava Escrito )

 

O cineasta conta que sentia a presença da fé quando ia à igreja - e também ao cinema. Afinal, os cartazes do lado de fora vendiam sonhos e, lá dentro, a fantasia tornava-se real. Aos poucos, Scorsese começou a decifrar a gramática cinematográfica. "Com meu pai, assisti a Assim Estava Escrito (de Vincente Minelli, 1952), primeiro filme que vi sobre o processo de realização de um filme", relembra também "O Monstro do Ártico (de Christian Nyby e Howard Hawks, 1951), uma experiência incrível, o choque, o humor, os diálogos sobrepostos.

The Thing from Another World (O Monstro do Ártico )

Logo, seu gosto se expandiu para outros territórios - aos 5 anos, já conhecia o neorrealismo italiano, gênero que descobriu ao lado dos avós, que choravam ao ver os filmes na televisão. "A solenidade com que viam e discutiam aqueles longas me fez entender que aquele era o mundo real. A condição humana é aquilo", afirma o cineasta.

Ladri di biciclette

 

Nos Estados Unidos, a preferência aos poucos recaiu para um punhado de criadores, como John Cassavetes (que lhe deu muito apoio no início de carreira) e Elia Kazan, controvertido cineasta (desprezado por muitos depois de ter colaborado com o macarthismo), cujo trabalho despertou em Scorsese a possibilidade de combinar realidade e ficção. "Depois de Sindicato de Ladrões (1954), compreendi que era possível fazer um filme de gênero convencional dentro dos limites de uma locação real", comenta Scorsese, que realizou um documentário sobre Kazan (Carta para Elia) e lhe entregou um Oscar especial pela carreira, em 1999.

On the Waterfront (Sindicato dos Ladrões)

 

 

Uma Carta para Elia

 

O primeiro diretor a se tornar um de seus favoritos, no entanto, foi John Ford. Por conta de seus filmes, Scorsese diz ter descoberto a forma clássica de se fazer cinema. Especialmente com Rastros de Ódio, obra-prima de 1956, em que John Wayne como Ethan Edwards percorre o Velho Oeste procurando a sobrinha sequestrada pelos índios. "Wayne refletia os Estados Unidos. Eu e meus amigos tínhamos 13, 14 anos e não conseguíamos articular isso, mas esse era o tom de tudo à nossa volta: a Guerra Fria, o racismo, tudo isso se refletia no rosto dele", comenta. "Ele era o herói louco, imperfeito, dos anos 1950."

The Searchers (Rastros de Ódio)

 

O turbilhão de informações alimentava o garoto que, ao fazer tentativas infantis de criar narrativas cinematográficas através de desenhos, já se encaminhava para a profissão de realizador, o que acabou acontecendo ao se formar no pioneiro curso da Universidade de Nova York.


Martin Scorsese

Antes, um detalhe curioso: Schickel diverte-se ao comentar a conhecida tentativa de Scorsese de se tornar padre, caminho que acreditava ideal para deixar o submundo em que vivia. "É curioso como essas questões católicas interessem mais a nações católicas como o Brasil", disse. "Ele não é crítico ou passional sobre sua religiosidade. Quando pretendeu ser padre na juventude, foi um ato de exagero, pois Marty se rebelou contra suas origens. Para ser franco, ele interrompeu sua carreira de coroinha por causa da dificuldade para levantar a tempo da missa da sete."

Mesmo definido o rumo a ser percorrido, Martin Scorsese não se livrou das raízes, pois o passado exerceu um poder significativo em sua obra, especialmente nos primeiros filmes. As lembranças do menino que não conseguia brigar na rua como seus colegas, fato que mantinha em torturante segredo, logo explodiram na tela com Caminhos Perigosos (1973) e principalmente em Taxi Driver (1976). "A solidão, ser um marginal, não ser capaz de se conectar com ninguém, isso se expressa especialmente em Taxi Driver e no personagem por meio da violência, que é uma representação fantasiosa", observa Scorsese. “A beleza do que Paul Schrader fez no roteiro é que ele toca em algo que é muito humano - também cheio de racismo e de todos tipos de aspectos desagradáveis. Mas, você sabe, esses são aspectos que se encontram em uma porção de gente."

Caminhos Perigosos (Mean Streets)

 

Richard Schickel concorda com o raciocínio mas, embora não se empolgue com Taxi Driver ("Tive de batalhar com o filme antes de lhe dar a boa crítica que merecia - gosto mais de Os Bons Companheiros"), prefere detalhar aquele que é considerado por muitos críticos a primeira obra-prima de Scorsese, Touro Indomável (1980). Curiosamente, o cineasta só realizou o filme por insistência de Robert De Niro, que se tornara um de seus atores fetiche (antes fora Harvey Keitel e hoje o posto é ocupado por Leonardo DiCaprio).

New York, New York

 

Scorsese recuperava-se de um doença grave, fruto da exaustão e da ingestão de uma variedade de drogas (lícitas e não), motivadas principalmente pelos problemas enfrentados com o musical New York, New York (1977), frustrada tentativa de combinar os estilos de Vincente Minnelli e George Cukor - como em A Época de Inocência (1993), o cineasta tentou homenagear o velho estilo de fazer cinema, ou seja, o sistema de estúdio, mas influenciado por técnicas modernas que já dominavam seu estilo.

A Época de Inocência

 

Ainda no hospital, o cineasta recebeu a visita de De Niro, empolgado em contar na tela a ascensão e queda do boxeador Jake LaMotta. "Eu me dei conta de que não tinha mais nada a fazer. Tinha esgotado todas as possibilidades. Até meus amigos (George Lucas, Steven Spielberg, Brian de Palma, Francis Ford Coppola) estavam seguindo seu próprio rumo. Eu estava sozinho. O que eu descobri - isso está em Touro Indomável e nos filmes posteriores - foi que eu tinha de resolver uma coisa."


Picture of Raging Bull
Clique na imagem para amplia-la

Scorsese vivia uma dualidade: pretendia ser um diretor no estilo de Hollywood ou um cineasta como os europeus? "Eu não me encaixava em lugar nenhum”, continua. "Ainda não me encaixo." Os dois caminhos aparentemente distintos, no entanto, convergiram-se nas qualidades de Touro Indomável. Schickel acredita que Scorsese estabeleceu uma ligação emocional entre aquele momento em que vivia, quando tocou o fundo da própria alma, com o semelhante desequilíbrio na trajetória de LaMotta.

"As cenas de boxe ainda hoje são muito brutais. Não se comparam com a violência dos filmes atuais, pois lá era um homem contra o outro, sem armas, apenas as mãos. Há uma força nessa selvageria que ainda me impressiona”, observa Schickel. "Mas a brutalidade mais profunda está na história de um homem furioso, desarticulado, em busca de umas poucas notas de graça numa existência em tudo selvagem."


The Last Temptation of Christ
Clique na imagem para amplia-la

 


Goodfellas
Clique na imagem para amplia-la

 

 


Kundun
Clique na imagem para amplia-la

Scorsese estabeleceu-se definitivamente, com esse filme, entre os diretores de primeira linha. Ganhou também o incômodo epíteto de cineasta da violência, o que é injusto, no entender de Schickel - além de realizar uma série de longas que fogem dessa temática (Depois de Horas, O Rei da Comédia, Kundun, para lembrar alguns, além de documentários), Scorsese firmou-se em Hollywood como um artista que independe de grandes bilheterias.


The King of Comedy
Clique na imagem para amplia-la

"Ele faz parte de uma geração que começou a filmar quando o sistema dos grandes estúdios estava falido, portanto, o cinema americano necessitava de uma renovação", afirma. "Apesar de se decepcionar quando os estúdios acolhem melhor filmes com temática violenta, ele sempre teve a capacidade de rodar algo diferente, precioso. É o caso de Hugo, que estreia em novembro. Trata-se de uma história para crianças, leve e com muito charme. Claro que ele não despreza longas violentos - afinal, ainda vive em um mundo conturbado."

Kundun

 

Fontes: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,novo-livro-sobre-martin-scorsese-conta-trajetoria-do-cineasta-americano,782630,0.htm; http://www.nycgovparks.org/

Home
Links

Artes Plásticas: A Arte do Brasil Holândes | A Arte do Egito Antigo | Arte Pré-Colombiana | Arte Tibetana | Beatriz Milhazes | Capela Sistina | Caravaggio, Pintor da luz e das trevas da alma | Damien Hirst | Francisco Goya | Frida: A Dor da Vida, A Dor Da Arte | Henri Rosseau | Impression : Soleit Levant | Kandinsky | La persistencia de la memoria | Las Meninas | Luz e Espaço | Manet | Meus Quadros - Leandro Reis | O quadro mais famoso do mundo | O Retrato do Doutor Gachet | Os pastores de Arcadia | Pablo Picasso | Pintura Barroca | Pintura Metafísica | Pinturas de Estradas | Rembrandt | Vieira da Silva | Virgem dos Rochedos, A | William Blake | Henri de Toulouse-Lautrec

Cinema: 1944, O Ano Noir |  A Falta que Nos Move | A Verdade Interna Revelada? | Alain Resnais | Alice no País das Maravilhas | Antonioni | As maiores canções do cinema - 0s 25 melhores filmes de todos os tempos | Bergman | Billy Wilder | Blow Up | Cahiers du Cinema | Cinzas da Guerra | Chinatown | Coincidências do Amor ( The Switch ) | Conversas com Scorsese | Ed Wood, Gênio? | Fellini | Garbo | Grandes atrizes francesas | Grande Musicais | Hachiko | Kiss Me Kate | Kundun | L’Enfer de Clouzo | Liz Taylor: Mito | Max Ophuls | Munich | Neo-Realismo Italiano | No Direction Home - Bob Dylan | O amor de Leon Cakoff | Os magos | Pier Paolo Pasolini | Rediscovering | Shane | Steven Spielberg | Sunset Boulevard | The Gang's All Here | Um estranho no ninho | Untold history of the United States | Awake .

Literatura: Arthur Clarke | Clássicos da Literatura | Dom Quixote | Jose Saramago | Joseph Conrad | Grande Gatsby, O | Grandes Poetas por Will Durant | Literatura Inglesa | Mario, Íntimo e pessoal | Vermelho e o Negros, O | Viagem do Elefante, A | Yeats e Joyce resgatam a identidade da Irlanda | Sobre preciosidades evolutivas | Carlyle e a Revolução

Outras: A Flauta Mágica | Antunes Filho | A Cabra ou Quem é SylviaAs pecas de Oscar Wilde | Bejart | Catedral de Chartres | Contemporaneidade | Daquele Instante em Diante |  Debussy, Schoenberg e Stravinsky | Grandes Arquitetos |  Hair | I´m Not There | Lacroix na ArteMistérios e paradoxos de Chopin, para Freire |  Niemeyer, construindo identidades | Nona Sinfonia | Queremos Miles |  Teatro | The Doors Are Open | Ray Charles Live in France 1961 (2011) | Sonho de uma Noite de Verão | Living in The Material World: George Harrison | Edgard Scandurra Estraçalhante | H.Hancock, Lenda Viva do Jazz | Kung Fu | Pina: Visceras de amor | Lou Reed | Música Sacra | Baden Powell Quartet | Todo Aquele Jazz | Osama Kitajima | Eric Clapton 70 | Jimmy Burns, ícone do blues de Chicago | O Lago dos Cisnes | Don Giovanni | Songs 50´s | Joe Harriott | Kindred Spirits Live | Top 10 Composers