Bossa Nova

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Há 50 anos, um grupo de brasileiros mostrou que não era preciso muito para produzir boa música. Basta um banquinho, um violão e, é claro, talento.

Nascia a Bossa Nova, que tornou a MPB conhecida e respeitada no mundo inteiro. Na terça-feira (08/07/2008), a Oca, no Parque do Ibirapuera, abriu suas portas para o que está sendo chamado de uma “mega exposição tecnológica”. Com direção de Marcelo Dantas, artista responsável pelo Museu da Língua Portuguesa, e do premiado videomaker Carlos Nader, a exposição – que ficará em cartaz por dois meses - vai contar a história da bossa nova e apresentar ao visitante o contexto em que o gênero musical foi criado.


Exposição sobre a bossa nova na Oca (Foto: Divulgação)

A bossa nasceu do samba. Teve influência do jazz. E também de um elemento que normalmente nem é percebido. O silêncio. "A música é o silêncio que existe entre as notas" costumava dizer o maestro Tom Jobim.

A palavra bossa apareceu pela primeira vez na década de 1930, em Coisas Nossas, samba do popular cantor Noel Rosa: "O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas(...)". A expressão bossa nova passou a ser utilizada também na década seguinte para aqueles sambas de breque, baseado no talento de improvisar paradas súbitas durante a música para encaixar falas.


Roda de Samba

Com imagens e sons a exposição conta e canta o movimento mais importante da música popular brasileira.

Primeiro o situa numa linha do tempo, naquele 1958. Por exemplo: tem Pelé que naquele ano arrebatou a coroa de rei do futebol na Copa da Suécia.


Garrincha e Pelé juntos na seleção brasileira / Foto: Arquivo O Globo

O primeiro fusca, ele está lá na exposição.

1959 - O Fusca começa a ser produzido no dia 3 de janeiro, com um índice de nacionalização de 54%. A primeira unidade é adquirida pelo empresário paulista Eduardo Andrea Matarazzo. No dia 18 de novembro, a fábrica Via Anchieta Km 23,5 é inaugurada oficialmente.

O calçadão de Copacabana, bairro onde a bossa começou.

Tudo isso está na mostra, que tem espaços confortáveis, projeções de documentários sobre os personagens principais dessa história.


Avenida Atlântica, em Copacabana

E a tecnologia traz, como num passe de mágica, a cada toque uma seleção de discos antológicos da bossa nova. Você encosta o dedo, eles aparecem. Olhe aí: "Chega de saudade", o primeiro disco solo de um baiano de Juazeiro, na margem do Rio São Francisco: João Gilberto. Ritmo, harmonia e colocação de voz fazem com que muita gente o considere uma espécie de bruxo.


Chega de Saudade 1958

Bossa nova não é só música. Dizem que é um jeito de ser, um jeito de fazer. Ela está envolvida com a cultura praiana - foi tocada e ouvida de frente para o mar. Por isso, esta exposição trouxe a imensidão azul para São Paulo.


Sylvia Koscina, João Gilberto, Tom Jobim e Mylene Demongeot

Seria uma exposição saudosista? Nada disso, informa o curador.

"A primeira palavra da bossa nova foi chega de saudade. A bossa nova é uma música feita por jovens, no melhor momento de sua juventude e para os jovens e é também uma linguagem jovem que ecoa até os jovens de hoje", afirma Marcelo Dantas.


Vinicius e Tom Jobim

Entre os mais de dez filmes reunidos, um lembra uma capixaba criada em Copacabana. Nara leão era adolescente quando reunia amigos para tocar violão em seu apartamento na zona sul.


Nara Leão with Baden Powell, Lúcio Alves & Tom Jobim

Momento impressionante é o encontro virtual de intérpretes de "Garota de Ipanema", uma das músicas mais gravadas da história. Entre eles, Frank Sinatra, que considerava Tom Jobim um dos maiores compositores do mundo.


Tom Jobim

E, claro, Tom. Afinal não é qualquer um que faz o sublime de uma nota só

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50 anos de Bossa Nova
Roberto Menescal

Nós éramos um grupo de jovens que procurava uma identidade musical, pois o que se tocava no Brasil no final dos anos 60, apesar de ser uma música bonita, bem feita, não era em absoluto uma realidade de uma geração mais solta, mais alegre, mais ligada à natureza do que a geração anterior que curtia a noite, as boates, os amores sofridos e cuja música refletia essas situações de seu dia-a-dia.

Ouvíamos e tocávamos sambas-canções que diziam: "Sei que falam de mim, sei que zombam de mim, ó Deus, como sou infeliz", ou "Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém", ou "Garçom apague essa luz que eu quero ficar sozinho, garçom me deixe comigo que a mágoa que eu tenho é só minha".

Imaginem nós, com 20 anos de idade, cantando todo esse sofrimento!

Passamos então a criar um outro universo mais leve e mais otimista na maioria das vezes, como: "Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém", ou "Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver", ou "Dia de luz, festa de sol, e um barquinho a deslizar no macio azul do mar". Todas essas mensagens vinham acompanhadas de uma música que era uma fusão de tudo que ouvíamos, como samba-canção, samba, bolero, jazz e muito musical norte-americano que passava sempre nos cinemas Metro. Essa fusão de melodias e harmonias veio embalada por uma batida que ficou famosa como "a batida da Bossa Nova" que todo mundo queria aprender, aliás, todo "O Mundo".

Nossa música, que sofreu essas influências que enumerei, viria, pouco mais tarde, a influenciar compositores, músicos e arranjadores do mundo inteiro.

Para mim, música é isso, uma coisa em eterna transformação, mutante e recebendo influências (boas) de todos os lados, pois se ela tentar se manter totalmente fiel às suas origens, tenderá a se extingüir, dando lugar a outras formas. A Bossa Nova está aí há 50 anos com sua forte personalidade, mas com novas harmonias, melodias mais arrojadas, e até a célebre batida da Bossa Nova hoje tem uma série de variações.

Poucos anos atrás, ou seja, no final do século passado, na Europa e Japão, principalmente, começou um movimento de uma música mais dançante, ligado à Bossa Nova, fazendo uma fusão com a música eletrônica e DJs. Com isto, compositores vários da Bossa, como Joyce, Marcos Valle, Jobim, etc., tiveram suas músicas regravadas e lançadas nessa nova onda, fazendo com que milhões de jovens saíssem dançando e cantando canções compostas há mais de 40 anos, como se fossem feitas para eles hoje em dia. Claro que tem muita coisa ruim sendo feita para aproveitar essa "onda", mas também tem muita coisa legal.

Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto, fez sucesso mundial com sua Nova Bossa, Marcos Valle e Joyce têm feito shows pelo mundo inteiro com suas Bossas revalorizadas, eu mesmo participei de algumas viagens com o grupo Bossa Cuca Nova fazendo shows em festivais com público de mais de 200 mil pessoas, coisa que a Bossa Nova tradicional nunca poderia ter alcançando com a intimidade de sua música.

Hoje podemos ter uma convivência pacífica entre a Bossa tradicional e a atual e acho isso super benéfico para as duas formas.

Não tínhamos a menor noção de que nossa música, nascida no final dos anos de 1950, continuasse com o vigor que tem hoje, 50 anos depois...

E se a deixarmos caminhar por aí se juntando às boas coisas que forem aparecendo, garanto que ela chegará a mais 50 anos. Quem sabe a gente ainda verá isso acontecer!


Roberto Menescal

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Espaço Oca - De 7 de julho a 7 de setembro, de terça a domingo, das 10h às 21h. Pavilhão Engenheiro Lucas Nogueira (OCA) – Parque Ibirapuera: Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, tel.: (11) 4003-1212. Ingresso: R$ 20.

Os 8 mil metros e quatro andares da Oca dedicados à Bossa Nova começam a ser explorados pelo andar térreo onde uma bancada de 60 metros apresenta uma linha do tempo de 1958 a 1965 com a história geral do Brasil e do mundo e outra com a história da música.

Enquanto isso, 28 janelas do prédio exibem imagens que dão o contexto histórico da Bossa Nova. Jukeboxes com 94 gravações, ficarão localizadas em outras seis janelas, onde é possível ouvir diferentes versões de clássicos do gênero. Ainda é possível conferir uma exposição de fotos no acerto do banco Itaú, patrocinador do evento. Assim como os outros andares, os espaços são delimitados por cordas de violão.

Em outro andar, três vídeos contam um pouco mais sobre Tom Jobim, Vinícius de Moraes e a Turma da Bossa. Sentado em um dos 40 banquinhos de piano em frente a partituras que emitem som, o visitante poderá assistir, no espaço dedicado a Tom Jobim, ao filme inédito “Vou te contar”, dirigido pela neta do músico, Nora Jobim. Já no espaço em homenagem a Vinícius de Moraes, será exibido o vídeo de 10 minutos, “Vinícius de Moraes” criado especialmente para exposição. Ele foi dirigido por Miguel Faria Jr., que em 2005 lançou o longa “Vinícius”. A Turma da Bossa, formada por Nara Leão, Carlos Lyra e Roberto Menescal é apresentada numa visão reduzida do filme “7 X Bossa Nova”, que pode ser assistido num espaço inspirado no apartamento de Nara Leão.

Mais três filmes no espaço central deste piso explicarão, em linguagem musical, a invenção da Bossa Nova. Ela tem curadoria do maestro Benjamim Taubkin e mostra como a Bossa Nova criou algo único com influências do jazz, samba e música clássica.

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Veja a discografia com a Biografia de João Gilberto

Veja a discografia com a Biografia de Tom Jobim

A Revolução da Salsa

Fontes: Jornal da Globo; Livro-agenda 2008 - 50 anos de Bossa Nova; Marina Gurgel