Vida Romântica, Vida Bandida

Pete Doherty, líder da banda Babyshambles, é nome constante nos jornais de escândalos por seu envolvimento com drogas e com a modelo Kate Moss. Em seu novo e ótimo álbum, ele celebra a poesia de Lord Byron.


Pete Doherty has been granted bail until September 4 (file photo).
(Getty Images: Gareth Cattermole)

Um território livre, um reino onde os limites não existem e tudo pode ser celebrado, porque a estrada dos excessos é o que leva ao palácio da sabedoria. Um lugar onde vive um herói, um jovem de imenso talento e rebeldia. No século 19, o personagem que cabia nessa descrição era o poeta George Gordon Byron, o Lord Byron. No início do século 21, seu correspondente seria Pete Doherty, o líder do grupo Babyshambles, disposto a provar ser o cenário da música pop o que foi a Itália para toda uma legião de poetas românticos: o espaço para a coragem e a diversão. De acordo com esse pensamento, se poetas do século 19 como Byron, Percy Shelley ou William Blake tivessem surgido hoje, estariam formando bandas e se apresentando em festivais - e não promovendo a poesia apenas em livros.

Babyshambles - Delivery

Os Babyshambles lançaram Shotter's Nation no final de outubro, o segundo trabalho do grupo. O álbum se mostrou uma surpresa. A principal delas, o simples fato de existir. Nas bolsas de apostas de Londres, Pete Doherty é tema de uma pergunta bizarra: por quanto tempo ele conseguirá permanecer vivo? Os apostadores têm dado em média oito anos, e é muito fácil observar a flutuação desse mercado. Basta seguir o rastro deixado diariamente por Pete nos jornais de escândalos. Em um dia, ele deixou sua namorada, a modelo Kate Moss. Na noite seguinte, estão mais uma vez juntos, com cocaína e heroína, provavelmente numa clínica de desintoxicação. E lá está Pete, 28 anos, saindo ou entrando em uma prisão. Como afirmou à imprensa britânica: "Cada um destrói aquilo que ama". E ele parece se adorar.

BYRONIANO

A frase dita por ele é uma criação do escritor Oscar Wilde (1854-1900), mas a atitude é a mais típica de Pete, que nas ocasiões mais inesperadas (como diante de um juiz em um tribunal) responde a questões sobre sua vida ou carreira recitando poemas ou frases de textos conhecidos da literatura britânica. Quando ele recebeu em 2004 um prêmio da revista inglesa New Musical Express (NME), agradeceu na cerimônia de apresentação com o poema Suicide in the Trenches ("suicídio nas trincheiras"), de Siegfried Sas soon (1886-1967), que possui este significativo verso: "Ele colocou uma bala na cabeça/e ninguém falou dele outra vez".


Babyshambles play the Boogaloo Bar, North London: (l-r) Mick Whitnall, Adam Ficek, Pete Doherty, Drew McConnell. Photograph: Richard Skidmore

O mundo dos Babyshambles, guiado pelo espírito de Pete, é feito não apenas de referências à poesia inglesa e aos feitos dos grandes poetas do Romantismo. A questão passa a ser outra: recuperar esse espírito perdido, no qual a poesia está no modo como se escolhe viver e os poemas são a ilustração dessa existência. E sua plataforma é a mitologia em torno do nome Albion. Assim era chamada a Grã- Bretanha em seus primórdios. Mas é também um país heróico, habitado por gigantes, segundo a imaginação do poeta William Blake (1757-1827) em seus versos. O primeiro CD dos Babyshambles se chama Down in Albion (2005), e The Books of Albion é o nome de sua coleção de escritos, publicada neste ano.

Pete Doherty é filho de um oficial militar inglês, e aos 16 anos ganhou um concurso de poesia, que o levou a excursionar pela Rússia em leituras promovidas pelo governo inglês. Na Universidade de Londres, sua escolha foi Literatura Inglesa, mas abandonou o curso antes do terminar o primeiro ano. Depois de um breve período trabalhando como coveiro, seu interesse se transferiu para a música. Com o também guitarrista Carl Barat, Pete formou o grupo The Libertines, uma verdadeira mania na Inglaterra entre 1997 e 2004. Durante esse período, Pete e Carl passaram a se definir publicamente como verdadeiros libertinos. Mais do que um fenômeno da música, Pete começou a encarnar o papel do herói byroniano para críticos surpresos e adolescentes a seus pés.

O herói byroniano (definido a partir da produção do poeta inglês, que viveu entre 1788-1824) possui as seguintes características: tem grande talento, demonstra uma imensa paixão, se distancia da sociedade e suas instituições, promove a rebelião, esconde um passado difícil, é arrogante e age de maneira autodestrutiva. Esse perfil é uma possível (e perfeita) descrição de Pete em uma coluna de fofocas - nesse caso, a intuição do músico é precisa. Se Byron estivesse vivo na era das celebridades, teria o mesmo destino, em razão de sua agitada existência: inúmeros casos amorosos, drogas, uma fixação sexual por sua meia-irmã, Augusta Byron, e seu envolvimento na guerra de libertação da Grécia, então dominada pelos turcos.

Essa estreita e assumida relação entre Pete Doherty e o romantismo permeia todo o álbum Shotter's Nation. Há uma presente e melancólica insatisfação com os rumos de uma sociedade, a inglesa, pálida, conformada, sem senso de aventura. Em Side of the Road, ele se vê como vítima dessa mesma nação desgovernada: "Meio morto/um terço vivo/um quarto pulsando no canto da estrada/ Não fique cercado pelas pessoas que você odeia".

Pete, com seus Babyshambles, navega entre os mais repetidos clichês do rock (jovem promissor se destrói com drogas e a máquina do sucesso) enquanto projeta um desejo muito maior, o de aproximar sua vida e poesia de alguns dos mais potentes e corajosos nomes da cultura, os poetas românticos, isso no momento na qual uma pretensão como essa pode rapidamente ser reduzida ao ridículo pela lente da câmera fotográfica de um paparazzo. O que o amanhã pode lhe reservar? "Eu tenho uma péssima relação com o futuro. Nós não nos entendemos. Na verdade, nos ignoramos", disse ele à mesma NME que o premiou. Desta vez, não se trata de uma citação. É um Pete Doherty original.

Pete Doherty, o líder da banda Babyshambles, encontra jornalistas após um de seus inúmeros julgamentos. Uma vida contada na imprensa de escândalos

Fontes: Marcelo Rezende



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