Planeta em combustão

Um mundo em ebulição, entre a Guerra do Vietnã, a morte de Guevara, drogas e flower power, influenciou e recebeu Sgt. Pepper


Em foto de Henri Huet no Vietnã, em 1966, corpo de soldado americano morto em combate na floresta, perto da fronteira com o Cambodja, é levado de helicóptero.

Que mundo era o nosso em 1967, quando os Beatles gestaram Sgt. Pepper? Era um mundo complicado, como de hábito. A exemplo de George W. Bush sobre o Iraque, o general William Westmoreland era um otimista: informava que as forças americanas no Vietnã previam a vitória total até o final daquele ano. E eles perderam, como sabemos.

Os Beatles apontavam sua lanterna psicodélica para um mundo colorido, mas alguns sinais já davam conta de que haveriam tempos cinzentos no horizonte: Ronald Reagan era eleito governador da Califórnia naquele ano, enquanto Che Guevara era assassinado na Bolívia. Na Nicarágua, Anastasio Somoza chegava à presidência.

Mas era o tempo do flower power, e nem todas as notícias eram terríveis. Na África do Sul, por exemplo, o médico Christian Barnard realizava com sucesso o primeiro transplante do coração. O escritor colombiano Gabriel García Márquez lançava o seu clássico Cem Anos de Solidão. Tempo de ousar e desafiar. O poeta Allen Ginsberg, farol da geração beatnik, era preso em Spoleto sob a acusação de obscenidade, após ter lido alguns de seus escritos no palco do Teatro Caio Melisso.


Allen Ginsberg

No Brasil, Glauber Rocha estreava em São Paulo o mítico Terra em Transe. Plínio Marcos estreava sua Navalha na Carne e Zé Celso Martinez Correa reinaugurava o Teatro Oficina, destruído no incêndio de 1966, com o clássico O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Dias de rosas & de espinhos: na USP, a polícia invadia o Crusp com 300 soldados para espancar e prender estudantes sob acusações de subversão.


Glauber Rocha

A crônica policial dava conta de que tinha sido finalmente preso o meliante João Acácio Pereira da Costa, conhecido nacionalmente como O Bandido da Luz Vermelha, autor de 20 assaltos e procurado pela morte de 3 policiais.

Nem mesmo para os Beatles aquele foi um ano completamente alegre. No dia 27 de agosto, enquanto desfrutavam da companhia do seu Maharishi em Bangor, arrombava-se a porta do quarto de uma residência em Londres, onde jazia morto o empresário Brian Epstein, que trabalhava com os Beatles. Overdose acidental de drogas, disse o laudo. Epstein tinha pago do próprio bolso a primeira gravação de uma demo dos Beatles.

“Se alguém foi o quinto Beatle, esse foi Brian”, disse Paul McCartney. No dia da morte, entretanto, lá na Índia, John Lennon não estava em condições de avaliar a perda. “Eu disse a John que Brian havia morrido e ele falou: ‘Eu sei, não é emocionante?’ E eu pensei: o quê? Mas todos eles estavam em estado de choque”, disse Neil Aspinall, road manager dos Beatles.

“Naqueles anos, todo mundo estava se excedendo deliberadamente, tomando estimulantes, ou anfetaminas e álcool – muito uísque ou conhaque e estimulantes – e depois se engasgavam com sanduíches. Adoravam fazer esse tipo de coisa e foi isso que Brian fez: ele vomitou e engasgou com o vômito”, disse George Harrison.

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Fontes : Lauro Lisboa Garcia ( O Estado de S.Paulo );

Bruno Cavalcanti ( Protons ), Wikipedia; Pedro Carvalho

O ano de 1967 foi mágico para o rock. Vários artistas lançaram seus álbuns de estréia: Pink Floyd, Doors, Velvet Underground, Nico, Grateful Dead, Jimi Hendrix, Janis Joplin, entre outros. Também foi o ano de ouro para alguns grupos: The Who, Beatles, Byrds, Country Joe and The Fish, Buffalo Springfield e o Love.

A banda era liderada por Arthur Lee, um dos poucos negros a ter essa posição em uma banda de rock, em 1965 (dois anos portanto da Jimi Hendrix Experience). Lee era considerado uma espécie de visionário e dono de um temperamento difícil.

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Para muitos Sgt Peppers é considerado o nascimento do rock progressivo (que não se prende a nenhum conceito predefinido, baseado na experimentação e no ineditismo). Divide esta glória com um outro álbum, curiosamente gravado no mesmo estúdio e ao mesmo tempo, The Pipers At The Gates Of Dawn, da banda Pink Floyd, que havia ficado famosa pelas suas performances audiovisuais no underground londrino, capitaneada pelo gênio movido a LSD de Syd Barret.

Descoberto e levado para a Inglaterra pelo ex-Animals Chas Chendler, Jimi Hendrix seria uma outra grande revelação de 1967. Com seu segundo single, Purple Haze (o primeiro havia sido Hey Joe, um ano antes) Hendrix captou a atenção não apenas do público, mas de astros como Eric Clapton e Mick Jagger, criando uma nova sonoridade e ampliando definitivamente o papel e os recursos da guitarra elétrica no rock.

Baseados na agressão ao stablishment e na liberdade (sexual e de experimentação) herdada do pensamento beat, surgia nos Estados Unidos o movimento hippie, concentrado principalmente em San Francisco, e tendo como expoentes bandas como Gratefull Dead, Jefferson Airplane (claramente influenciadas por drogas) e The Doors (com seu primeiro single, Light My Fire) e artistas derivados da música folk como Janis Joplin. São marcos da época as flores no cabelo (daí o termo flower power), os cabelos longos e as comunidades alternativas. O símbolo de três pontas relacionado ao lema "paz e amor" foi tomado da sinalização militar que significava "cessar bombardeio". Nada mais adequado em época de Guerra do Vietnan.

O grande evento do ano de 1967 seria o Monterey Pop Festival que reuniu na California Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Animals, Simon and Garfunkel, Bufallo Springfield, entre outros.


Janis Joplin


The Doors

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Nove Grandes Albuns de 1967

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The Doors "Doors" (janeiro)

Absolutamente clássico! O estilo insuperável jazz-rock cáustico, o órgão arrepiante de Ray Manzarek, o vocal viceral de Jim Morrison, enfim, o conjunto inteiro num som incrivelmente original, que saiu das tripas dos Rolling Stones e conseguiu chegar aos bagos dos Beatles em matéria de deixar herdeiros. Um disco obrigatório, sedutoramente dramático - perfeito do início ao fim, que, ao lado do alucinado e genial Strange Days (de outubro do mesmo ano), definem os The Doors como uma grande banda.

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Velvet Underground & Nico (janeiro)

O que podemos dizer do debut do Velvet Underground? Um cronista das ruas, adepto de William Burroughs, com um músico erudito da aristocracia Inglesa, com uma beldade/atriz de cinema surda, com o artista mais cult de Nova Iorque nos anos 60 (Andy Warhol). Juntos, formariam a banda americana mais importante dos anos 60. Letras chocantes, vocais miseráveis, instrumentais simples e econômicos, dando origem a um rock folk maldito e pop, inspirador e repugnante, que abriria caminho para um novo conceito de música popular.


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The Jimmy Hendrix Experience "Are you Experienced?" (maio)

"Você já experimentou?", pergunta Jimmy Hendrix. O blues de raíz com soul music, guitarras psicodélicas com o virtuosismo do primeiro dos guitar heroes, tudo aglomerado, formou um dos discos mais influentes de todos os tempos, principalmente no que se refere ao uso da guitarra, como instrumento preponderante, versátil e criativo. O time de apoio também era perfeito, com Mitch Mitchell na bateria e o baixo destruidor de Noel Redding.

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Pink Floyd "The Piper At The Gates Of Dawn" (agosto)

O responsável por este diamante se chama Syd Barret. O extremo do rock psicodélico está aqui. O grande disco de psicodelismo - se não de todos os tempos, ao menos dos anos 60. Uma verdadeira viagem ao estilo Alice no País das Maravilhas rumo às profundezas macabras da mente de Syd, que foi expulso do Pink Floyd pouco antes deste álbum sair. A banda então passou a fazer rock progressivo.

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The Beach Boys "Smiley Smile" (setembro)

Foi o Srgt. Peppers dos Beach Boys. Depois de terem feito toda a inovação tecnológica em seu disco anterior, o experimentalista Pet Sounds, de 1966, Brian Wilson, não satisfeito, decidiu ir mais além, o que lhe rendeu um surto psicótico e quase a ruína da carreira dos Beach Boys. O disco não vendeu budegas, o que é mais um atestado de sua qualidade. Muita loucura para um disco só, a turma de vocais em coro dos Beach Boys em seu melhor estilo, e vários nuances lísergicos dos mais bizarros possível.

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Love "Forever Changes" (novembro)

Banda do impagável Arthur Lee. Rock gipsy, com cordas barocas e flamencas, além de óbvias influências de folk. O som lembra algumas vezes o que Simon & Garfunkel ficaram tão famosos fazendo. Não é, portanto, um disco genuinamente psicodélico - no sentido lisérgico da palavra -, apesar de ser um dos discos mais cultuados na época pelo enxame hippie. É folk pop de primeira qualidade.

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The Rolling Stones "Flowers" (junho)

Lançado ao mesmo tempo que o Srgt. Peppers, dos Beatles, este disco é quase uma coletânea de singles, covers, músicas de outros discos, etc. Estava todo mundo em cana por porte de heroína mesmo! Mas em matéria de psicodelismo, este disco não é a melhor coisa que você vai encontrar, embora clássicos como "Ruby Tuesday", "Have you seen your Mother,...", "Let's spend the Night Together", "Out of Time" e "Lady Jane", caracterizam este como um dos grandes discos de 1967.

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The Kinks "Something Else With the Kinks" (setembro)

O disco mais importante de um dos cinco grupos mais maravilhosos da Inglaterra pós-Beatles, os geniais The Kinks. Começa com o mod pulsante "David Watt", que daria a luz ao The Jam fazer o que fez, o fuzz jazz (leia-se pré-Bossa Nova) de "No Return", que influenciaria gente como Yo La Tengo, a funkeada (sic) "Love me till the sunshine", as belas "Death of a Clown", "Afternoon Tea" e a genial obra de arte "Waterloo Sunset". As psicodélicas "Tin Soldier Man", "Situation Vacant" e "Love me till the Sunshine", completam um dos discos mais amalgâmicos do rock.

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The Byrds "Younger Than Yesterday" (fevereiro)

O quarto disco da banda de David Crosby associou ao estilo único das canções do The Byrds, a atmosfera surrealista do que acontecia na época, gerando um álbum essencial. "So you want to be a Rock 'N' Roll Star", que abre o disco, é uma sátira dedicada ao grupo The Monkees. Em "CTA-102", efeitos nos vocais simulam a voz de um alien. "Everybody's Been Burned" é uma das grandes baladas dos anos 60.

________________________ FATOS DE 67

Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Robertão)

ANO CAMPEÃO VICE
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1967 Palmeiras Internacional
1968 Santos Internacional
1969 Palmeiras Cruzeiro
1970 Fluminense Palmeiras

Em 1971, o torneio foi substituído pelo Campeonato Brasileiro, naquela época chamado de Campeonato Nacional.

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A Campanha do Sinai, como é conhecida em Israel essa segunda guerra árabe-israelense, foi facilmente vencida por Israel, porém a vitória militar terminou ofuscada pelas pressões políticas dos Estados Unidos e da União Soviética dentro do contexto e da lógica da Guerra Fria. Em 1967, o ataque israelense foi uma antecipação aos movimentos do Egito e da Jordânia. Desde maio desse ano, os exércitos árabes já estavam reunindo forças ao longo das fronteiras de Israel e a frente árabe constituída pelo Egito, Jordânia e Síria recebia contínuo apoio soviético.

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Em 1967 a Brabham vence o campeonato, mas o piloto neo-zelandês Denny Hulme supera Jack Brabham por 3 pontos e conquista o título.

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Sgt. Pepper´s

O Álbum "Sgt. Pepper's" foi eleito o maior disco de todos os tempos pela revista "Rolling Stone" em 2003. Com arranjos inovadores, técnicas de gravação e concepção gráfica inéditas, o disco mudou os rumos do rock e fez com que os álbuns passassem a ser definitivamente o principal formato da produção musical, papel antes ocupado pelos singles.

Como um livro, com começo, meio e fim, "Sgt. Pepper's" distribui em seus quase 40 minutos algumas das canções mais memoráveis da discografia dos Beatles. Além da faixa-título, destacam-se as afetivas "With a Little Help From My Friends" e "When I'm 64" (por coincidência, a idade atual de Paul McCartney), a psicodélica "Lucy in The Sky With Diamonds" (cujas iniciais, "LSD" não eram, de acordo com John Lennon, uma referência ao alucinógeno) e a épica "A Day In The Life", faixa mais ambiciosa do disco.

"Sgt. Pepper's", no entanto, não surgiu do nada. O álbum foi o ápice de um processo evolutivo iniciado com "Rubber Soul", lançado no final de 1965, disco que marca o início da fase "séria" na carreira da banda. Em seguida, "Revolver", de 1966, deu início à psicodelia e experimentalismo que continuariam no começo do ano seguinte, no compacto com "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane". Destinadas originalmente para "Sgt. Pepper's", as duas faixas serviram de aperitivo para o que viria a seguir.

As sessões de gravação do álbum, que duraram 129 dias, foram as primeiras realizadas sem as pressões das turnês, encerradas para sempre em agosto de 1966 (meros dois meses antes do início da gestação de "Sgt. Pepper's"). Transformados num grupo de estúdio, os Beatles tiveram a chance de desenvolver todo seu potencial criativo sem interrupções e evoluir musicalmente a um nível jamais atingido anteriormente por uma banda de rock.

Além do aprimoramento na composição dos músicos, demonstrado pelos elementos eruditos de faixas como "She's Leaving Home", a obra é marcada por experiências inéditas até então, como o final épico de "A Day in The Life", em que todos os instrumentos de uma orquestra tocam ao mesmo tempo todas as notas possíveis, da mais grave à mais aguda. Em "Being for the Benefit of Mr Kite" a voz de Lennon é acompanhada por uma colagem de sons de realejos, música de carrossel e outros sons de parques de diversão, antecipando a técnica utilizada décadas depois na música eletrônica com o advento do sampler.

Inspirado musicalmente nos arranjos orquestrais do álbum de 1966 "Pet Sounds", dos Beach Boys, e nas idéias de "Freak Out", lançado no mesmo ano por Frank Zappa, o objetivo de "Sgt. Pepper's" era contar a história de uma banda ficcional e seus personagens paralelos. No entanto, conforme foram surgindo as composições, o projeto foi abandonado e, exceto pela faixa-título e pelas fardas de banda militar que os quatro vestem na capa, nada restou da idéia original. Ao contrário do que muitos pensam até hoje, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" não é um disco conceitual.

Na ocasião do lançamento, o crítico britânico Kenneth Tynan afirmou em sua resenha no jornal londrino "The Times" que, mais do que um mero disco pop, aquele era um "momento significativo na história da civilização ocidental". Depois de "Sgt. Pepper's

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2007 Sgt. Pepper´s 40 anos

GEORGE MARTIN

Ao mestre, com carinho
O produtor que ajudou os Beatles a redefinir a música pop do planeta. ( clique aqui para saber mais )

AUTOCRÍTICA

O que fizemos?
"Sgt. Pepper´s" nunca foi consenso, nem mesmo entre os Beatles.( clique aqui para saber mais )

A CAPA

Embalagem pop
Referência da pop art, capa do álbum inspirou paródias e tributos. ( clique aqui para saber mais )

MEMÓRIA

Meninas, eu chorei
Brasileira enfrenta frio e fome em Londres, em 1967, para conhecer quarteto. ( clique aqui para saber mais )

Há 40 anos no dia 1º junho de 1967, aproximava-se o verão no hemisfério norte e o planeta em combustão recebia o guia da revolução cultural : Sgt. Pepper´s - clique aqui 15 Fatos sobre Sgt. Pepper´s

Curiosidades sobre "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"